A minha história de intolerâncias alimentares e sono

Intolerâncias Alimentares e Sono

Na minha infância não tive uma boa relação com o sono. Não sei o que despoletou o quê ao certo, mas estou certa que as minhas intolerâncias alimentares prejudicaram bastante o meu sono, bem como a aprendizagem de bons hábitos de sono. Quando se tem um bebé que está constantemente a chorar, a vomitar, com diarreia, desconfortável, o estar ao colo parece ser o único recurso que pode dar algum conforto. Então, experimentei o colo de quase toda a gente da família e, mesmo assim, não era fácil manter-me tranquila.
Como devem imaginar, era impossível manterem-me ao colo uma noite inteira, o que ainda dificultava mais a minha tranquilidade, pois não queria deixar aquele colo de maneira alguma, pois não conhecia o conforto e a segurança de outro sítio.

Agitação, falta de sono e choro persistente em bebés e crianças pequenas é exaustivo e stressante para todos na família. Algumas crianças que apresentam este comportamento podem ter uma alergia à proteína do leite de vaca. Esta proteína pode ser consumida através do leite artificial, alimentos sólidos ou passada através do leite materno. Os sintomas da alergia ao leite de vaca podem ser confundidos com os sintomas de cólica. As pesquisas feitas nesta área demonstram uma ligação entre a alergia ao leite de vaca e a dificuldade do bebê de adormecer e continuar dormindo. Um bebé com uma alergia alimentar acorda com muita frequência e chora bastante a noite, é agitado e facilmente irritável, o que leva a que as horas de sono sejam reduzidas. Outros sintomas também podem prejudicar o sono como irritações na pele, eczema de pele, problemas gastrointestinais e dificuldades respiratórias.

A boa notícia é que as mesmas pesquisas apontam que o fato de retirar o leite de vaca da dieta resulta num retorno ao sono normal para a grande maioria desses bebês e na maioria dos casos a alergia resolve entre os 12 e 36 meses de idade. Se há uma suspeita de alergia, é aconselhável retirar o leite de vaca da dieta de 2 a 4 semanas. Isso significa evitar todos os alimentos que contém leite , uma mudança no tipo de leite artificial e, no caso do bebé amamentado com leite materno, a retirada do leite da dieta da mãe. Outros alimentos que podem afetar o sono ou que induzem a insônia por alergia ao alimento são a soja, o trigo , os ovos , as nozes, chocolates, milho, fermento e corantes.

Atualmente a medicina evolui bastante na área das intolerâncias alimentares, no diagnóstico e nas soluções, daí que seja muito mais fácil haver um diagnóstico precoce e poder retirar os alimentos que provocam intolerância o mais cedo possível.

Se um bebé tem tido dificuldades de sono por causa de alergias a alimentos por algum tempo, pode ter adquirido hábitos de sono que não são saudáveis. Neste caso, será importante depois que o problema da alergia ficar resolvido, ajudá-lo a desenvolver hábitos de sono e associações de sono mais saudáveis, o que poderia resultar num sono melhor para toda a família.

Uma das associações saudáveis de sono é: adormecer no mesmo espaço onde se vai manter a dormir. Daí ser importante saber reconfortar o bebé na cama, porque nem sempre o colo resolve tudo, ou pode resolver num momento e logo que se tenta pousar o bebé, volta ao choro aflitivo, como que a querer dizer: “nem penses colocar-me aí, não me enganas!“. Se o bebé conseguir sentir-se bem na cama, vai ajudá-lo a dormir melhor. Se ele considerar que só no colo se sente confortável, vai recusar a cama, como é óbvio.

Envolver o bebé, reduzir o espaço à sua volta, colocar um saquinho aquecido na sua barriguinha, ficar ao lado, contendo os movimentos, oferecendo a chupeta (caso use), colocando as suas mãos em cima do corpinho do bebé, embalando o berço, irá ajudar o bebé a sentir-me melhor na cama. Caso, não se acalme, o colo será sempre um bom lugar para acalmar e tentar pousar o bebé antes de estar realmente a dormir, pois a probabilidade de se aperceber que já não está no colo e acordar é grande. Outras vezes, terá mesmo que dormir no colo e ficar por lá, para que consiga descansar.

Não desista de ensinar a dormir bem e de procurar respostas para o desconforto! 🙂

Dia Mundial do Sonho

Hoje, no Dia Mundial do Sonho, gostaria de vos falar um pouco sobre o que se sabe sobre o sonhos e que impacto poderá ter na vida dos mais pequenos.

Os sonhos na nossa vida, aqueles que existem enquanto dormimos, surgem ainda quando estamos na barriga da nossa mãe. “Quando estão nas barrigas das mães, os bebés sonham em 80 por cento do tempo. Quando nascem, têm comportamentos que lhes asseguram a sobrevivência. Temos memórias nos nossos genes, que asseguram a sobrevivência da espécie”, segundo Teresa Paiva, médica neurologista e a que eu considero a maior especialista sobre o sono portuguesa. Sonhar permite-nos resolver problemas ou até entendermos o impacto que alguns acontecimentos têm na nossa vida.

Na infância, principalmente a partir dos 24 meses, a criança começa a ter noção que sonha e, muitas vezes, os seus sonhos representam os seus medos, as suas emoções, as suas frustrações. Esta noção de que existem estes fenómenos oníricos, coincide com a fase das birras, de maior frustração.
É nesta fase, que a criança começa a manifestar estranheza perante a existência dos sonhos, que devemos explicar o que são, o que os diferencia da realidade. Como já disse, noutro artigo, é importante explicar que somos nós, a “nossa cabeça” que cria os sonhos enquanto dormimos. Foi assim que expliquei à minha filha, o que era sonhar e ela passou a contar-me os seus sonhos da seguinte forma: “mãe, eu hoje fiz um sonho… sonhei que…“. Ou seja, a criança pode entender a diferença entre a realidade e sonhar, diminuindo o impacto negativo de alguns sonhos. Se os sonhos forem de temas recorrentes, sempre com um lobo, sempre com uma bruxa, é importante retirar a carga negativa destas personagens, não desvalorizando, mas mostrando como um lobo até pode ser amigo ou a bruxa até pode ser engraçada.

Um dia superestimulante pode implicar mais matéria onírica e implicar, também, mais pesadelos na infância. Os pais devem ajudar a equilibrar os estímulos durante o dia, diminuindo o contacto com ecrãs ou contendo momentos demasiados excitantes, para os quais a criança poderá ainda não estar preparada.
Os pais devem contar que também sonham e o que sonham. Partilhar sonhos, é partilhar o que somos, o que sentimos e o que queremos.
As crianças têm uma grande capacidade para sonhar a dormir e acordados, por isso, cabe-nos a nós, ensinar a sonhar, ensinar a não ter medo de sonhar, a não ter medo de enfrentar os riscos de sonhar e acreditar que tudo é possível! 🙂

Ajude o seu filho a dormir melhor no infantário

Ajude o seu filho a dormir melhor no infantário

Para muitos pais, a entrada na creche/infantário gera uma série de preocupações:
– Vai chorar quando o deixarmos?
– Vão cuidar bem dele?
– Irá comer bem?
– Como irão alimentá-lo, se não aceita o biberão?
– Como irá dormir, se em casa só adormece a mamar ou ao colo?
– Vão deixar chorar para dormir?

Muitos pais procuram-me, antes da entrada no infantário, com todas estas questões e inseguranças normais desta fase. Têm o desejo de alterar em pouco tempo, os hábitos dos filhos para que se possam adaptar melhor.

Infelizmente, os bons hábitos de sono não se estabelecem em poucos dias, muito menos, quando se trata do sono diurno. Contudo, poderão haver mudanças positivas, em pouco tempo, caso os pais saibam o que fazer para que as suas estratégias adotadas sejam semelhantes às que a criança vai encontrar no infantário.
Antes de mais, é muito importante que os pais se informem das rotinas que vão existir no infantário, os horários de alimentação e de sono, bem como o ambiente existente para dormir (luz, escuro, silêncio, música, ruído).
Para que o sono da criança seja adequado durante o dia, é muito importante que tanto a política institucional da creche/infantário seja sensível às necessidades de sono individuais de cada criança, como que exista uma comunicação efectiva com os pais. Não basta comunicar aos pais, quando vão buscar os filhos, que: “esteve tudo bem”, pois esta comunicação não permite aos pais terem conhecimento de informações muito importantes e detalhadas. Caso a instituição não demonstre este empenho, é importante os pais perguntarem, diariamente, como correram as sestas (forma de adormecer, quantidade de sestas, duração das sestas), para que possam adequar o sono em casa (necessidade de mais uma sesta ao final do dia, adequar a hora de deitar à noite e seguir a mesma rotina quando a criança está em casa).

Existem instituições que criaram o livro da criança onde é anotado, diariamente, tudo o que aconteceu durante o dia: como dormiu, como comeu, quantos cocós, quantos xixis, como se comportou. Creio que todos os pais têm o direito de receber esta informação ao pormenor e, infelizmente, isto não acontece em muitas situações.

Então, afinal, como pode ajudar o seu filho a dormir melhor na creche/infantário?
– Comunicar com a educadora/auxiliares o que sabe sobre o sono do seu filho: hábitos de adormecer, horários de adormecer e de acordar, onde costuma dormir e em que ambiente;
– Levar para o infantário a fraldinha, dou dou, bonequinho que estejam associados ao sono;
– Se a criança tem hábitos de sono difíceis de replicar no infantário como: adormecer a mamar, adormecer ao colo, adormecer no carrinho a ser embalado, é importante, que os pais tentem alterar estes hábitos já em casa, umas semanas antes que ingresse no infantário; caso não seja possível, é importante estar em constante comunicação com o infantário para poderem trabalhar em equipa, o adormecer de forma mais autónoma;
– Conhecer os horários praticados no infantário e mantê-los em casa;
– Criar o mesmo ambiente que existe no infantário para dormir durante o dia (ideal é sem luz e sem ruído ou música de embalar);
– Cuidar do sono nocturno, pois a tendência é que quanto menos dorme à noite, menos dorme durante o dia;
– Pedir na creche que a criança não durma as sestas mais longas (após a hora do almoço) numa espreguiçadeira (não é adequado para o desenvolvimento físico do bebé e, por vezes, cria dependência do embalo o que compromete a duração da sesta).

Para poder cuidar das sestas realizadas na creche/infantário, também é essencial que os pais conheçam as necessidades de sono dos seus filhos, consoante a idade e as suas características pessoais, bem como as recomendações existentes. A Sociedade Portuguesa de Pediatria, em 2017, emitiu recomendações sobre as sestas nas creches/infantários públicas ou privadas que consistem em:
– Devem ser proporcionadas as condições adequadas (leito/colchão, ambiente calmo, escuro, com temperatura adequada, limitação de ruído e com vigilância) a todas as crianças em idade pré-escolar a fim de assegurar a qualidade do sono da sesta.
– Cada criança deve ter um plano individual de sesta, acordado com a família.
– A sesta deve ser promovida pela educadora de infância na presença de manifestações de privação de sono ou necessidade de sesta pela criança.
Um dos problemas que mais encontro sobre as sestas na creche está relacionado com a sesta da manhã que, em algumas das instituições, não é considerada como necessária. Desta forma, não é criado o ambiente propício para dormir, tal como é criado após a hora do almoço. Esta sesta de manhã deve existir até, pelo menos, aos 12 meses de idade, tendo a tendência de ir diminuindo de duração. Muitas crianças acabam por não dormir de manhã, não por não terem essa necessidade, mas porque o ambiente é demasiado estimulante para tal.

Outro problema que despoletou a criação das recomendações sobre as sestas, pela Sociedade Portuguesa de Pediatria, de que vos falei anteriormente e, cujo link para o documento vos deixarei no final do artigo, foi a necessidade da sesta ser facilitada e promovida nas crianças até aos 5/6 anos, o que não se verifica em muitas instituições.

Num modo geral, daquilo que conheço das creches e infantários, existe a preocupação de guiar para dormir da forma mais adequada possível e, os pais devem estar descansados, pois seria impossível deixar chorar uma criança durante muito tempo quando existem outras crianças que estão a dormir ou que podem começar a chorar também. Acredito que com uma comunicação constante e trabalho de equipa, pode-se melhorar bastante as sestas da criança realizadas na creche ou infantário. Até porque, uma grande maioria dorme melhor a sesta na escola do que em casa. Porque será papás? A rotina e o adormecer mais autónomo, está no cerne da resposta, a esta questão.

Como prometido, aqui fica o link para o Documento das Recomendações sobre as sestas nas creches e infantário da Sociedade Portuguesa de Pediatria. E boas sestas! 🙂

Afinal quando é normal dormir a noite inteira?

Sono do BebéA grande questão dos pais sobre o sono, centra-se na questão de que quando será que finalmente poderão dormir uma noite descansada. Há quem diga que nunca mais, pois depois de se ter um filho, mesmo quando ele já deixa os pais dormirem uma noite inteira, a vida nunca mais será a mesma e as preocupações com eles, nunca mais os deixarão dormir descansados. Outros dizem que talvez quando deixar de mamar, outros dizem lá para os 3 anos, outros quando começar a andar e se cansar mais… Outros, ainda, acham que o seu bebé deve dormir a noite inteira quando tiver 4 meses como o bebé da amiga.

Não existe uma resposta muito concreta sobre este tema, tal como à questão de quando o bebé começa a andar, sabemos que é normal que aconteça dentro de um período de tempo, mas não acontece para todos os bebés na mesma idade. Relativamente, ao sono, a grande maioria dos estudos recentes indicam que a maior parte dos bebés de termo e saudáveis, com três meses, é fisiologicamente capaz de dormir várias horas de seguida durante a noite (cerca de 6 horas, pois dá-se a consolidação do sono nocturno) e pelos seis meses não precisam de ser alimentados durante a noite. Contudo, cerca de 25 a 50% dos bebés continuam a acordar durante a noite até aos nove a doze meses.

Quando falamos de um bebé que “dorme a noite inteira”, não queremos dizer que estes bebés não apresentam pequenos despertares próprios da arquitectura do sono (microdespertares), são é capazes de ultrapassá-los sem ajuda e voltar rapidamente a dormir. Com 1 ano, 60 a 70% dos bebés são capazes de se autoconsolarem e readormecer sem chorar.

A grande maioria dos investigadores nesta área defende que o bebé tende a apresentar, progressivamente, períodos de sono mais longos e que aos 6 meses já é, fisiologicamente capaz de dormir, entre 10 a 12 horas seguidas sem comer, desde que esteja a alimentar-se bem durante o dia.
Temos também que ter em conta o número de despertares, para podermos avaliar se é normal estar a acordar determinado número de vezes, com determinada idade. Por exemplo, é natural que um bebé de 5 meses ainda precise de se alimentar durante a noite 1x, mas se acorda e sinaliza cada microdespertar, praticamente de hora em hora ou de 3 em e 3 horas, na maioria das noites e sem estar doente nem desconfortável, possivelmente existe uma perturbação de sono por maus hábitos, por associações relativamente ao adormecer que o bebé não consegue replicar sozinho durante a noite, não conseguindo resolver estes despertares.

Para sabermos avaliar se o nosso bebé pode estar fisiologicamente preparado para dormir mais horas durante a noite, mas ainda não o faz por questões comportamentais, importa avaliar o seguinte:
– Se já foi possível dormir melhor e, entretando regrediu, tendo esta regressão já várias semanas (há regresões normais causadas por momentos de picos de crescimento ou por aquisições motoras e cognitivas que normalmente não duram mais que um mês);
– Conforme se foi desenvolvendo, o bebé não foi espaçando os intervalos para comer durante a noite (muito provavelmente se pede para comer, já não é fome, mas sim um hábito);
– Ainda não aprendeu a adormecer de forma autónoma;
– Se o sono diurno é insuficiente para a idade (pouco sono de dia, pior à noite);
– Se existem rotinas e ambiente desadequadas para dormir.

A maioria dos autores refere que se a criança está num ambiente que reforça cada período de vigília durante a noite ou cada microdespertar porque lhe dão de comer ou porque lhe respondem imediatamente, não se irá esforçar por voltar a adormecer por si. Deste modo, os problemas de autonomia e de independência estão muitas vezes na origem dos problemas de sono. Embora na nossa sociedade haja muita pressão no sentido de uma mãe ou um pai se sentirem culpados por irem pegar no filho ao colo demasiadas vezes ou durante demasiado tempo, eles não se sentem capazes de forçar um bebé pequeno que chora toda a noite a procurar os seus padrões de autoconforto. É natural que queiram chegar-se ao bebé e deixar que este se chegue a eles, pois a maioria dos pais deseja secretamente o conforto quente, cheiroso e amoroso de sentir o bebé a dormir junto a eles. É um misto de sentimentos, entre a necessidade de dormir e a dificuldade em gerir os protestos do bebé, no sentido da sua autonomia e auto-consolo.

O meu papel é ajudar a gerir este misto de sentimentos e ajudar os pais a encontrarem formas, o mais suaves possíveis, para ajudar os seus bebés a dormirem melhor.

Bibliografia consultada:
O Grande Livro da Criança, o desenvolvimento emocional e do comportamento durante os primeiros anos” – T. Berry Brazelton, Editorial Presença.
Centro Medicina do Sono” – Teresa Paiva e Thomas Penzel. Editora Lidel.
Pediatric Sleep, Diagnosis and Management of sleep problems”- Jodi A. Mindell e Judith A. Owens. Editora Wolters Kluwer.

Porque a hora de adormecer é tão importante?

Porque a hora de dormir é tão importante?

Vivemos numa época de muito stresse, vivemos a um ritmo aceleradíssimo, sem tempo para não fazer nada, sem tempo para dedicarmos atenção ao nosso organismo e às suas necessidades. E os nossos filhos acabam por viver, inevitavelmente, também a um ritmo acelerado, acompanhando-nos no nosso dia-a-dia, saem tarde da escola, ATL, depois de muitas horas fora de casa, chegam a casa, e pouco tempo existe para as tarefas restantes: banho, jantar, estar um pouco com os pais e ir dormir. Estas poucas horas que passam em casa com os pais, ao final do dia, muitas vezes não são vividas com tranquilidade e qualidade. Já parou para pensar que mal observa com atenção o seu filho, que anda em piloto automático, num contra-relógio entre as tarefas da casa e os cuidados básicos às crianças? E tempo para ouvir música com eles, olhando nos seus olhinhos com atenção, conhecendo-os melhor? E tempo para brincar com eles, de forma presente sem estar a pensar no que tem que fazer no dia seguinte ou que ainda tem que colocar a máquina a lavar? E tempo para ler a história todas as noites com prazer, com miminho? O turbilhão que, por vezes, pode haver na nossa mente de pais, com mil pensamentos ao mesmo tempo, o nosso cansaço, reflecte-se muito no comportamento deles e, também na forma como percepcionam o mundo. Assim, eles também não conseguem desligar, não conseguem relaxar, emitam-nos inconscientemente na nossa agitação e intranquilidade.
Se para nós pais, o sono for importante, cuidarmos dele e o respeitarmos, é mais fácil que os nossos filhos tenham o mesmo comportamento. O sono necessita de rituais, de pormenores, de uma preparação. Tal como tem que preparar a refeição para a poder comer, dormir também precisa de uma preparação adequada.
O estado emocional e físico na hora de adormecer é influenciado pelo nosso dia e pelos momentos antes de irmos dormir. Desta forma, temos que nos preocupar com o sono desde que acordamos, porque ele vai ser influenciado por tudo o que acontece no nosso dia-a-dia (alimentação, stress, exercício físico). No caso das crianças, posso resumir os factores que mais influenciam o seu estado emocional e físico na hora de adormecer:
– Caso ainda tenham idade para dormir a(s) sesta(as) e se tiverem tido oportunidade de o fazer de forma adequada para a idade, será mais fácil que adormeçam de forma mais tranquila;
– Se o dia foi preenchido por bons estímulos adequados à idade(brincar, saltar, actividades que permitam sorrir, interagir com o outro), se não foi um dia preenchido por stress, birras também é mais fácil que adormecer e dormir sejam mais tranquilos;
– Logo após o jantar, todo o ambiente, actividade devem ser adequados para proporcionar um bom momento para adormecer, por isso, desligue TV, não permita contacto com telemóveis, tablets, nem actividade física vigorosa, coloque uma musica tranquila, deixe de lado o que tem para fazer e dedique-se a criar um momento de interacção positivo e calmo com o seu filho: para os bebés, um banho relaxante; para as crianças a partir dos 18 meses, ler uma história; para crianças a partir dos 3 anos, fazer um puzzle, brincar com algo que permita estar sentado, que não estimule demasiado a criança e depois ler a história. Acima de tudo, proporcione estes momentos com uma boa energia, não porque tem que ser e seja firme no respeito do que é permitido ou não nesta hora.
– Uma hora de dormir que é sentida como um momento de separação, de insegurança e em que a criança sente que ainda não preencheu a sua necessidade de estar com os pais, pode prejudicar bastante toda a noite que se segue.

Um dos factores que é extremamente importante para um bom sono, é todo o ambiente/situação em que a criança adormece. Nós, humanos, temos a necessidade de controlar o que acontece enquanto dormimos, não podemos permitir que fiquemos em perigo enquanto estamos a dormir, por isso avaliamos algumas vezes se tudo se mantém igual desde que adormecemos. Os bebés podem fazer esta avaliação, que coincide nos momentos de microdespertar, de hora em hora e despertarem efectivamente, tendo mais dificultade em voltar a dormir, caso algo se tenha alterado. Por isso, vou-lhe passar uma informação muito valiosa:

Os bebés e crianças dormem melhor se adormecerem na situação mais idêntica a que se vão manter a dormir.

Se eu adormecer de mão dada com alguém, se eu adormecer com luz acesa, se eu adormecer a ser embalada, se eu adormecer com música a tocar, se eu adormecer quentinha, se eu adormecer a mexer no cabelo de alguém, se eu adormecer no sofá e…. entretanto… aperceber-me que já não tenho nenhuma mão na minha, se a luz se tiver apagado, se já não estiver a ser embalada, se a música já não estiver ligada, se ficar destapada, já não encontrar o cabelo em que mexia, se acordar na minha cama sem saber como lá fui parar… eu juro que me assustaria e MUITO!
Daí que uma das tarefas importantes para ajudar a dormir melhor, é aproximarmos (por vezes, temos que ir bem devagarinho, quando as crianças dependem de algo exterior que não controlam para adormecer) de uma situação em que a criança consegue adormecer e manter-se a dormir, sem nada se alterar no seu envolvente ou naquilo que precisa para adormecer. Se a criança precisa de si pai e mãe para adormecer, é bem provável que volte a precisar sempre que sentir a vossa falta.

Bons soninhos! 🙂

“Levaste a bebé à psicóloga, deves estar maluca!”

Consulta do Sono

Há muito tempo que oiço desabafos dos pais sobre aquilo que a família e amigos dizem quando lhes contam que vieram à consulta do sono. As frases que ouvem são deste género: “é normal que não durma, é um bebé!“, levaste a bebé à psicóloga, deves estar maluca!“, “tu é que precisas de ir à psicóloga, porque ter um bebé é assim…“.

Eu sorrio e respondo que é normal haver este tipo de pensamento, porque até há muito pouco tempo não havia consultas do sono para bebés e crianças, não havia resposta para este tipo de problema e que ainda existe muito preconceito relativamente a consultar um profissional formado em psicologia. Os psicólogos não tratam só os chamados “malucos”, trabalham em várias áreas e especializam-se em várias áreas relacionadas com o comportamento. Sabemos hoje que a causa de muitas perturbações do sono ou problemas do sono derivam de causas comportamentais e não fisiológicas, principalmente na infância. Cuidar do sono dos mais pequenos, não é forçar num sentido que seja contra-natura, pois é verdade que os bebés podem precisar de despertar durante a noite e receberem uma resposta dos pais em algumas situações. É sim, adequar o ambiente, as respostas dos pais/cuidadores, os horários, rituais de sono às necessidades do bebé em cada fase do seu desenvolvimento. Existem pequenos pormenores, como a existência de luz ou não, que podem fazer toda a diferença no sono. É esta informação que passo aos pais e é através de informação com base científica, tendo em conta todos os aspectos essenciais para um bom desenvolvimento físico, cognitivo e emocional, que são desenhados os planos de acção para melhorar o sono.

Apesar de ainda haver um longo caminho a trilhar sobre estas crenças que não valorizam o sono dos mais pequenos e consideram que o bom sono nasce com eles, não podendo ser melhorado ou que se tem que esperar que cresça ou por um milagre, fico muito contente pela crescente procura da minha ajuda nos últimos 5 anos. Tenho muita esperança em ser possível mudar estas crenças e os pais que já foram acompanhados na consulta, têm sido fortes aliados neste sentido. Sofrem com estes comentários, mas a sua maioria não se deixa enfraquecer, pois os resultados da sua confiança em todo o processo, são visíveis. Obrigada pela confiança, obrigada pela vossa perseverança, obrigada pelo vosso amor incondicional pelos vossos filhotes, obrigada por quererem fazer sempre melhor!

Se eu fosse vós, também estaria confusa!

© Psicóloga Teresa Sousa

Sou mãe há 5 anos e já houve tanta coisa que me fez parar para reflectir sobre a educação da minha filha. Erro todos os dias e aprendo todos os dias. Cresço diariamente como mãe e é obrigatório ter esta capacidade porque eles não param de crescer e nós temos que nos adaptar constantemente. Não sentem o mesmo?
Quando há algumas situações que não sei como resolver, procuro respostas porque tenho uma faceta de inconformista, acredito sempre que se pode melhorar.
Tenho um acesso privilegiado à informação, pois devido à minha formação tenho uma biblioteca vasta e actual, bem como sei onde devo procurá-la (pelo menos, na maior parte das vezes). Se, para mim, mesmo sendo formada em Psicologia e com várias formações pós-licenciatura, por vezes é difícil filtrar informação e escolher a que mais me faz sentido, imagino que não seja nada fácil para os pais que são “bombardeados” com artigos sobre o que é correcto e o que é incorrecto na educação e desenvolvimento das crianças, frequentemente através de vários meios, se sintam confusos com tanta informação contraditória.

Na área do sono infantil, a que me dedico, mesmo entre especialistas do campo comportamental (trabalham sobre o comportamento e não medicam), não há consenso sobre vários aspectos. Há estudos que demonstram que de determinada forma é que está bem, outros demonstram completamente o contrário, o que provoca quase uma clivagem entre modelos de intervenção e um desacordo entre profissionais. A área comportamental não é como a matemática em que “2+2 são 4” e não há dúvidas sobre isso.
Depois, infelizmente, há muita gente sem formação base na área comportamental que se intrometeu nela e que até se autointitula “especialista” ou até “fada dos bebés”. Não existem fadas. Fadas são as mães e os pais! Esses sim são os heróis que se dedicam 24 horas a estes seres incríveis que são as crianças!
Quando trabalhamos com pais e crianças, creio que a maior virtude não é ter razão, mas sim ter humildade, saber escutar, sem julgamento, sem receitas universais!
Mas voltando ao título deste post: no vosso lugar, estaria muito confusa! Afinal pode-se ou não ajudar a dormir melhor? Afinal estas estratégias que vendem por aí, só passam de tretas? Será que isto de dormir bem, não é próprio de cada criança e não há nada que possamos fazer, apenas esperar que cresça? Um diz: dá colo para dormir, nunca negues colo, senão és má mãe! Outro diz, coloca a dormir na cama dele, a culpa de não dormir, é tua! Dorme com ele que passa a dormir bem! Não podem dormir com o bebé, assim nunca vai dormir bem! Ui dizem-se tantas coisas que percebo que dê vontade de fazer ouvidos moucos a tudo!
Tenho as minhas teorias sim, não só com base no que estudei, mas também tendo por base a minha experiência profissional e, não menos importante, experiência de mãe. Mas as teorias que utilizo não são rígidas, dependem muito da criança e dos pais que tenho à minha frente. Acima de tudo, procuro ajudar e não impor formas de fazer.
Penso que no meio disto tudo, o mais importante é ouvirmos o que vai cá dentro, aquela voz que nos diz se está tudo bem, que é uma fase, ou isto não está bem, eu não estou bem, o meu bebé não está bem, a minha relação de casal está a sofrer com a privação de sono, sou pior pai e mãe desta forma cansada e sem paciência. Se ouvirmos o nosso interior com atenção, vamos encontrar respostas e vamos perceber se devemos procurar ajuda ou não. Pedir ajuda não é fracassar ou mostrar que somos maus pais, pelo contrário, é querer ser melhor!

Como ajudar o seu filho a dormir nas férias do Natal?

Como ajudar o seu filho a dormir nas férias do Natal

Muitos pais, nesta época de festas, viagens, visitas da famílias, almoçaradas, jantaradas, excitação para as crianças, questionam-me como manter o bom sono finalmente alcançado ou como não perturbar totalmente o sono dos mais pequenos.

É evidente que será mais difícil manter a rotina normal de sono durante a azáfama das festas, contudo ao tentar proporcionar o melhor descanso para as crianças, vai permitir que estas aproveitem estes momentos da melhor forma, evitando birras constantes. Creio que com algumas estratégias, é possível passar momentos inesquecíveis e de diversão em família e com os amigos, a par de proporcionar o descanso necessário às crianças:

1- Não é obrigatório, por alguns dias, ser prisioneiro da rotina.
Se os nossos filhos já têm uma rotina estável e dormem bem há algum tempo, não tendo problemas prévios de sono, podemos permitir que a brincadeira antes de dormir se estenda um pouco mais. Quando, na maior parte das vezes, estamos a atingir as necessidades básicas do sono, as sestas ocasionais perdidas ou a hora de dormir podem não afectar muito os nossos pequeninos. Assim, se algumas semanas antes das férias o sono é uma prioridade, será mais fácil para a criança lidar com menos horas de sono durante as festas.
Para as crianças que recentemente estão a modificar padrões de sono e estão a aprender a dormir melhor, é muito importante manter rotinas, senão não se pode esperar progressos ou até podem existir retrocessos, caso a rotina e o plano de melhoria de sono não for respeitado. Não se deve iniciar processos de melhoria do comportamento face ao sono em alturas que não é possível manter a consistência. Quando for possível manter rotinas, o melhor ambiente de sono e as estratégias definidas, voltam as mãos à obra!

2- Levar objectos/reproduzir ambiente familiar do sono
Quando fizer a mala de viagem ou a mochila para estar algum tempo fora de casa, não se esqueça de levar os objectos que fazem parte da rotina de sono do seu filho, como bonecos, dou dous, chupeta, livros, músicas, saco cama, almofada… Assim tanto para fazer uma sesta ou para dormir à noite fora de casa, a criança se sentirá mais confortável e conseguirá mais facilmente dormir bem.
Pratique a rotina de ir para a cama de forma consistente, reproduzindo-a onde quer que esteja e sempre que puder, tanto nas sestas como à noite. Se em casa, costuma ler sempre a mesma história antes de dormir, leve consigo essa história e reproduza a mesma rotina tal como em casa. Ao guiar a criança para a mesma sequência de eventos antes de dormir, vai permitir à criança maior sentido de conforto e segurança, preparando-a para dormir onde quer que esteja. Ah, nos hotéis não costuma ser fácil manter o escuro tal como em casa, pois não costumam existir persianas, o que pode provocar um despertar mais cedo. Como evitar que isto aconteça? Pode colocar a cama da criança o mais longe possível da entrada de luz, pode colocar uma cadeira contra o cortinado nas laterais, de forma a evitar que entre tanta luz ou pode motivá-la a usar uma venda para dormir (existem umas muito giras com desenhos).

3- Evite sobreestimular os bebés com demasiados estímulos e actividades.
Bebés demasiado cansados vão ter mais dificuldade em adormecer e podem ter mais despertares à noite, por isso não planeei actividades demais. Tente proporcionar vários momentos de descanso, mesmo em movimento no carrinho, no carro…
Tente respeitar os horários de dormir à noite e durante o dia. Se o bebé dormir bem no carrinho por exemplo, não há problema em fazer algumas sestas na rua enquanto todos passeiam, mas cuidado para não exagerar e fazer todas as sestas na rua, porque se o bebé não descansar o suficiente e dormir em lugares muito agitados, a qualidade de sono não será a mesma! No final, a noite pode ser difícil!

4- Evitar demasiadas birras com demasiada descarga emocional.
Há crianças que facilmente ficam muito cansadas. Esteja atento ao comportamento da criança, ao excesso de excitação, birras que pode indicar demasiado cansaço. Se for o caso, retire a criança do ambiente estimulante, explique aos presentes que a criança precisa de descansar e leve-a para um sítio mais calmo, onde possa descansar.
Antes de dormir, é importante ter pelo menos 30 minutos num ambiente mais tranquilo e sugira alguma actividade mais serena para que a criança se prepare para descansar. É normal que com a mudança de rotina, de ambiente e o contacto com novas coisas nestes dias de festa, provoquem mais dificuldade em adormecer e o seu papel é ajudar, tentando não introduzir demasiados novos hábitos que sejam difíceis de retirar posteriormente.

5- Divirta-se e evite momentos de stress!
Explique aos seus familiares e amigos que viajam ou que estão consigo nestas festas que você não é “chata” ou “exageradamente cuidadosa” com os horários do bebé, mas sim que os bebés têm necessidades de sono diferentes dos adultos e mesmo que a mudança de rotina seja passageira, o bebé pode ficar demasiado exausto e ser complicado para todos gerir o choro e a sua impertinência. Se eles insistirem em não “entender”, faça o que for melhor para si e para o seu bebé. Não vale a pena discutir com ninguém, apenas faça o que acha mais certo e não se culpe! Tenha confiança no que considera o mais correcto, até porque a mãe é você!
Tenha um excelente Natal e passagem de ano com a sua família e amigos e não stresse com todas as regras do sono. Mesmo os hábitos menos positivos, adquiridos nestes dias, podem ser removidos quando se volta à rotina normal, por isso não vale a pena criar batalhas nestes momentos, até que por pais stressados, filhos stressados e tudo se torna mais difícil! Divirta-se e aproveite estar com os seus filhos, família e amigos da melhor forma possível!

Boas Festas!

Quando acabar com a sesta?

Quando acabar com a sesta?

Um dos temas abordados na Consulta do Sono envolve as sestas e até quando a criança necessita de dormir a sesta. Alguns pais referem que a criança deixou de dormir a sesta com 3 anos, quando começou a frequentar o pré-escolar numa escola pública ou em alguns infantários que tomaram a mesma decisão. Outros referem que mesmo antes da criança deixar de dormir a sesta na escola, já não dormia a sesta ao fim-de-semana. E a conclusão dos pais, na maioria das vezes, é que não foi benéfico para a criança! Até mesmo quando não associam uma coisa à outra, quando os faço pensar sobre isso, concluímos que começaram a surgir maiores resistências para adormecer à noite e despertares nocturnos, a partir do momento que a criança deixou de dormir a sesta no infantário (antes dos 4/5 anos).

Muito recentemente, a 1 de Junho de 2017, a Sociedade Portuguesa de Pediatria veio apresentar as suas recomendações acerca da sesta nas creches, infantários, públicos ou privados e a recomendação chave é clara: A sesta deverá ser facilitada e promovida nas crianças até aos 5/6 anos de idade”.
A Sociedade Portuguesa de Pediatria afirma ainda que “a privação da sesta e a não realização do total de horas de sono diárias são uma problemática frequente na prática clínica e motivo de preocupação para os pediatras e médicos de família assim como para as respectivas famílias”.

As crianças têm, como é óbvio, as suas características individuais e podem apresentar diferenças de necessidade de sono diário, principalmente a partir dos 4 anos, além de que o tempo total de sono nocturno irá influenciar a duração da sesta e, até a partir desta fase, a necessidade de a realizar. Como podemos saber se a criança está pronta para deixar de dormir a sesta? Ao avaliar estes indicadores:

– Quando existe uma resistência prolongada na hora de adormecer à noite, porque não está cansada (esta questão tem que ser bem avaliada, pois se a criança estiver muito cansada a resistência para adormecer também é maior, pela dificuldade em se acalmar, relaxar para adormecer e pode não ter sinais de sono);
– Apresenta despertares nocturnos ou acorda muito mais cedo de manhã em comparação com a rotina prévia (aqui também temos o reverso da moeda, ou seja, uma criança em privação de sono também pode ter tendência em despertar mais durante a noite, tal como referi anteriormente);
– Incapacidade em adormecer durante o período inicial de 30 a 40 minutos de sesta;
– Tem a capacidade de passar todo o dia acordada com a preservação da atenção, humor e actividade sem necessidade de ter uma sesta.

Nem todas as crianças apresentam as mesmas alterações, em resultado de estarem a dormir menos do que necessitam ou quando deixam de dormir de todo a sesta. Contudo, sabendo o impacto do sono insuficiente em vários problemas comportamentais e fisiológicos, a Sociedade Portuguesa de Pediatria recomenda que a possibilidade de fazer a sesta deve ser implementada até à idade escolar, devendo ser as necessidades de sono individuais tidas em conta. Desta forma as suas orientações são no sentido de:
1- Devem ser proporcionadas as condições adequadas (leito/colchão, ambiente clamo, escuro, com temperatura adequada, limitação de ruído e com vigilância) a todas as crianças em idade pré-escolar a fim de assegurar a qualidade do sono da sesta.
2- Cada criança deve ter um plano individual de sesta, acordado com a família.
3- A sesta deve ser promovida pela educadora de infância na presença de manifestações de privação de sono ou necessidade de sesta pela criança.

Gostaria de acrescentar que, em casa, a criança também deveria ter acesso ao melhor ambiente para poder dormir a sesta e serem os pais a proporcioná-la, já que se a criança se mantiver em espaços de actividade, fora de casa, poderá não conseguir dormir, mantendo o estado alerta. Muitas vezes, não se trata de a criança não ter necessidade de dormir, pode é não haver o ambiente propício para relaxar e conseguir adormecer.

Se desejar saber mais sobre as recomendações da Sociedade Portuguesa de Pediatria sobre o sono diurno, deixo-lhe aqui o link.

Boas sestas! 🙂

A importância do sono diurno: “I Believe in naps!” – Parte I

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Ao longo da minha experiência de trabalho com famílias sobre o sono dos mais pequenos, deparo-me muitas vezes, com ideias de desvalorização acerca do sono diurno. Há pais que chegam a pedir nas creches/infantários que não deixem que os filhos durmam a sesta para ver se dormem melhor à noite. Por outro lado, nas creches nem sempre há a informação correcta sobre as necessidades de sono dos bebés, pois por vezes, deparo-me com situações de bebés que não são deitados para dormir uma sesta durante a manhã, apenas sendo colocados para dormir num ambiente propício, após a hora do almoço, quando a sesta durante a manhã deve existir até cerca de um ano de idade, principalmente se o bebé acorda cedo. Estas ideias não poderiam estar mais erradas e vou passar a explicar porquê.

As sestas são especialmente importantes para um sono saudável na infância, além de serem essenciais, quando o tempo de sono diurno é adequado à idade, para um bom sono nocturno. “Sono traz mais sono”, ou seja, se a criança dormir e descansar aquilo que precisa durante o dia, mais facilmente adormecerá de forma mais tranquila à noite e mais facilmente terá um sono sem interrupções durante a noite. Eu costumo explicar aos pais que o sono diurno, pelo menos até aos 4 anos, é como se constituísse os pilares da casa do sono, se esses pilares forem débeis, teremos um mau sono nocturno. Desta forma, o sono da sesta ou das sestas é tão importante como o sono da noite, no que toca ao descanso corporal e, também, à actividade cerebral, intelectual e emocional, além de oferecer ao bebé e à criança uma pausa nos estímulos, permitindo-lhes recarregar baterias para continuarem a apreender o mundo da melhor forma.

Há muitos pais mesmo sem saberem como o sono diurno pode afectar o sono nocturno, que se preocupam em colocar os bebés/crianças a dormirem durante o dia, pois reparam que se estiverem muito tempo acordados, vão ficando cada vez mais impertinentes, chorosos e difíceis de acalmar. Há sempre excepções, em que os pais relatam que têm bebés  bem dispostos, mesmo quando o seu sono diurno é deficitário. Contudo, da minha experiência este estado de boa disposição normalmente não dura muitos meses, pois é como se o cansaço se fosse acumulando e, principalmente quando surge uma novidade no desenvolvimento da criança que exige mais dispêndio de energia, este estado de “bebé tranquilo” bem como o sono nocturno, provavelmente se alterará.

Outro facto que também é importante referir, é que não podemos avaliar a necessidade de sono dos bebés e crianças pelo seu comportamento de resistência para dormir ou estado de vigília, ou seja, nem sempre uma criança cansada pede para dormir ou cai para o lado de sono, muitas vezes até parecem super despertos e excitados  e, afinal estão é muito cansados. Este estado de excitação confunde os pais se realmente a criança precisa de dormir, por isso costumam dizer: “parece que nunca está cansado”. Se o bebé não é guiado para dormir no momento certo, pode-se manter desperto e ultrapassar o estado de cansaço, chegando rapidamente ao estado de exaustão. No estado de exaustão, ao contrário do que era expectável, os bebés não aceitam bem que sejam colocados para dormir, pois estão já tão agitados e superestimulados que têm dificuldade em se acalmar, em relaxar para conseguir adormecer.

Depois de uma boa sesta, as crianças estarão melhor dispostas para interagir e os pais, após termos cuidado do sono diurno, costumam referir que a criança parece outra, muito mais calma e sorridente. Por isso, vale a pena ensinar a dormir melhor durante o dia, os ganhos são imensos.

Nos próximos posts, vou falar-vos sobre como gerir as sestas consoante a idade (número de sestas, tempo de duração,  janelas de oportunidade para adormecer tranquilamente); qual o melhor ambiente para dormir a sesta; como orientar para dormir melhor a sesta e quando a sesta deixa de ser necessária.

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“O meu filho parece um relógio suíço, acorda sempre à mesma hora!” – A influência do relógio biológico no sono

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O sono é uma das funções do corpo humano que é regulada por um relógio biológico que, segundo os cientistas, é constituído por dois grupos de células que se encontram no centro do cérebro. Este relógio biológico é definido de acordo com o conjunto de pistas derivadas do ambiente, especialmente pelos períodos de luz e escuro e envolve o ciclo de sono e vigília, actividade digestiva, produção de hormonas, regulação térmica e diversos outros processos que se repetem diariamente. O período de tais ciclos dura cerca de 24 horas e, cada um dos processos atrelados ao citado relógio biológico, repete-se diariamente. Apesar dos ritmos circadianos serem inatos, levam tempo a se desenvolverem. É por isso que os recém-nascidos têm ciclos de sono/vigília inconstantes e que, essencialmente são regulados, pelo sentimento de fome ou satisfação (saciedade). Por volta das 4 a 6 semanas de vida, o ciclo circadiano começa a desenvolver-se, iniciando-se com a regulação hormonal (hormona do crescimento e a melatonina) e, pelas 8 a 12 semanas, um bebé é capaz de dormir por períodos mais longos, pois já é possível a consolidação e maior regulação dos ritmos de sono. Por vezes, os bebés precisam de ajuda para regular os seus ritmos de sono, o que é possível, guiando o bebé para rotinas/horários mais estáveis e criando ambientes distintos entre o dia e a noite, além disso a exposição solar durante o dia, vai ajudar a criar ritmos mais constantes e a manter o bebé mais desperto durante o dia e a dormir por períodos mais longos durante a noite.

O relógio biológico tem tanto impacto na qualidade do sono que, quando não existem horários consistentes para dormir e acordar, a probabilidade de existirem problemas de sono é maior. Um exemplo da existência de necessidade de constância nos horários de dormir e acordar, é que quando acordamos durante a semana de trabalho à mesma hora, a nossa tendência é acordar à mesma hora no fim-de-semana, mesmo que possamos dormir até mais tarde. O relógio biológico cria marcas através da constância, permitindo adormecer mais facilmente à mesma hora e acordar à mesma hora. A inconsistência nos horários de sono tem impacto no desenvolvimento cognitivo das crianças, provocando um ritmo circadiano disruptivo, privação de sono e efeitos na plasticidade do cérebro (capacidade que o cérebro tem em se remodelar em função das experiências do sujeito, reformulando as suas conexões em função das necessidades e dos factores do meio ambiente). Desta forma, é muito mais fácil que uma criança adormeça tranquila se for deitada, todos os dias, por volta da mesma hora (hora adequada à sua idade) e ao adormecer mais tranquila e não muito cansada, mais facilmente conseguirá prolongar o sono nocturno sem ter despertares.

Em muitos casos de problemas de sono na infância, existem situações anteriores como acordar com fome, com frio, com sede, porque tem um “sonho mau”, uma dor, ou outra razão que ficam marcados no relógio biológico, mesmo quando já não existe fome, nem frio ou dores. Isto costuma acontecer se os despertares, mesmo quando não existe desconforto da criança, forem marcados (o que exige repetição) pela intervenção dos pais (a presença dos pais, o leitinho quente, as festinhas e os beijinhos, o colo, as canções e outros rituais para embalar), de forma que o despertador biológico fica programado para essas horas. Exemplo típico destas situações, é o acordar para comer durante a noite, mesmo quando a alimentação já foi reforçada durante o dia e quando já não existe uma necessidade fisiológica. Se os pais continuarem a responder com comida aos despertares dos filhos, os despertares vão-se manter, quase cronometrados por um “relógio suíço”. Para ser possível, apagar estas marcas, estes despertares do relógio biológico da criança, é necessário os pais deixarem de responder de forma tão interventiva, diminuindo progressivamente a sua intervenção, dando sinal à criança que ela própria pode aprender a resolver estes despertares sem tanta ajuda dos pais. Mas atenção, tal não implica deixar de intervir radicalmente, como deixar chorar sem intervir. É possível guiar a criança a sentir confiança em si própria e nas suas capacidades de resolução dos despertares, de forma suave e nunca se sentindo abandonada.

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