Afinal quando é normal dormir a noite inteira?

Sono do BebéA grande questão dos pais sobre o sono, centra-se na questão de que quando será que finalmente poderão dormir uma noite descansada. Há quem diga que nunca mais, pois depois de se ter um filho, mesmo quando ele já deixa os pais dormirem uma noite inteira, a vida nunca mais será a mesma e as preocupações com eles, nunca mais os deixarão dormir descansados. Outros dizem que talvez quando deixar de mamar, outros dizem lá para os 3 anos, outros quando começar a andar e se cansar mais… Outros, ainda, acham que o seu bebé deve dormir a noite inteira quando tiver 4 meses como o bebé da amiga.

Não existe uma resposta muito concreta sobre este tema, tal como à questão de quando o bebé começa a andar, sabemos que é normal que aconteça dentro de um período de tempo, mas não acontece para todos os bebés na mesma idade. Relativamente, ao sono, a grande maioria dos estudos recentes indicam que a maior parte dos bebés de termo e saudáveis, com três meses, é fisiologicamente capaz de dormir várias horas de seguida durante a noite (cerca de 6 horas, pois dá-se a consolidação do sono nocturno) e pelos seis meses não precisam de ser alimentados durante a noite. Contudo, cerca de 25 a 50% dos bebés continuam a acordar durante a noite até aos nove a doze meses.

Quando falamos de um bebé que “dorme a noite inteira”, não queremos dizer que estes bebés não apresentam pequenos despertares próprios da arquitectura do sono (microdespertares), são é capazes de ultrapassá-los sem ajuda e voltar rapidamente a dormir. Com 1 ano, 60 a 70% dos bebés são capazes de se autoconsolarem e readormecer sem chorar.

A grande maioria dos investigadores nesta área defende que o bebé tende a apresentar, progressivamente, períodos de sono mais longos e que aos 6 meses já é, fisiologicamente capaz de dormir, entre 10 a 12 horas seguidas sem comer, desde que esteja a alimentar-se bem durante o dia.
Temos também que ter em conta o número de despertares, para podermos avaliar se é normal estar a acordar determinado número de vezes, com determinada idade. Por exemplo, é natural que um bebé de 5 meses ainda precise de se alimentar durante a noite 1x, mas se acorda e sinaliza cada microdespertar, praticamente de hora em hora ou de 3 em e 3 horas, na maioria das noites e sem estar doente nem desconfortável, possivelmente existe uma perturbação de sono por maus hábitos, por associações relativamente ao adormecer que o bebé não consegue replicar sozinho durante a noite, não conseguindo resolver estes despertares.

Para sabermos avaliar se o nosso bebé pode estar fisiologicamente preparado para dormir mais horas durante a noite, mas ainda não o faz por questões comportamentais, importa avaliar o seguinte:
– Se já foi possível dormir melhor e, entretando regrediu, tendo esta regressão já várias semanas (há regresões normais causadas por momentos de picos de crescimento ou por aquisições motoras e cognitivas que normalmente não duram mais que um mês);
– Conforme se foi desenvolvendo, o bebé não foi espaçando os intervalos para comer durante a noite (muito provavelmente se pede para comer, já não é fome, mas sim um hábito);
– Ainda não aprendeu a adormecer de forma autónoma;
– Se o sono diurno é insuficiente para a idade (pouco sono de dia, pior à noite);
– Se existem rotinas e ambiente desadequadas para dormir.

A maioria dos autores refere que se a criança está num ambiente que reforça cada período de vigília durante a noite ou cada microdespertar porque lhe dão de comer ou porque lhe respondem imediatamente, não se irá esforçar por voltar a adormecer por si. Deste modo, os problemas de autonomia e de independência estão muitas vezes na origem dos problemas de sono. Embora na nossa sociedade haja muita pressão no sentido de uma mãe ou um pai se sentirem culpados por irem pegar no filho ao colo demasiadas vezes ou durante demasiado tempo, eles não se sentem capazes de forçar um bebé pequeno que chora toda a noite a procurar os seus padrões de autoconforto. É natural que queiram chegar-se ao bebé e deixar que este se chegue a eles, pois a maioria dos pais deseja secretamente o conforto quente, cheiroso e amoroso de sentir o bebé a dormir junto a eles. É um misto de sentimentos, entre a necessidade de dormir e a dificuldade em gerir os protestos do bebé, no sentido da sua autonomia e auto-consolo.

O meu papel é ajudar a gerir este misto de sentimentos e ajudar os pais a encontrarem formas, o mais suaves possíveis, para ajudar os seus bebés a dormirem melhor.

Bibliografia consultada:
O Grande Livro da Criança, o desenvolvimento emocional e do comportamento durante os primeiros anos” – T. Berry Brazelton, Editorial Presença.
Centro Medicina do Sono” – Teresa Paiva e Thomas Penzel. Editora Lidel.
Pediatric Sleep, Diagnosis and Management of sleep problems”- Jodi A. Mindell e Judith A. Owens. Editora Wolters Kluwer.

“Levaste a bebé à psicóloga, deves estar maluca!”

Consulta do Sono

Há muito tempo que oiço desabafos dos pais sobre aquilo que a família e amigos dizem quando lhes contam que vieram à consulta do sono. As frases que ouvem são deste género: “é normal que não durma, é um bebé!“, levaste a bebé à psicóloga, deves estar maluca!“, “tu é que precisas de ir à psicóloga, porque ter um bebé é assim…“.

Eu sorrio e respondo que é normal haver este tipo de pensamento, porque até há muito pouco tempo não havia consultas do sono para bebés e crianças, não havia resposta para este tipo de problema e que ainda existe muito preconceito relativamente a consultar um profissional formado em psicologia. Os psicólogos não tratam só os chamados “malucos”, trabalham em várias áreas e especializam-se em várias áreas relacionadas com o comportamento. Sabemos hoje que a causa de muitas perturbações do sono ou problemas do sono derivam de causas comportamentais e não fisiológicas, principalmente na infância. Cuidar do sono dos mais pequenos, não é forçar num sentido que seja contra-natura, pois é verdade que os bebés podem precisar de despertar durante a noite e receberem uma resposta dos pais em algumas situações. É sim, adequar o ambiente, as respostas dos pais/cuidadores, os horários, rituais de sono às necessidades do bebé em cada fase do seu desenvolvimento. Existem pequenos pormenores, como a existência de luz ou não, que podem fazer toda a diferença no sono. É esta informação que passo aos pais e é através de informação com base científica, tendo em conta todos os aspectos essenciais para um bom desenvolvimento físico, cognitivo e emocional, que são desenhados os planos de acção para melhorar o sono.

Apesar de ainda haver um longo caminho a trilhar sobre estas crenças que não valorizam o sono dos mais pequenos e consideram que o bom sono nasce com eles, não podendo ser melhorado ou que se tem que esperar que cresça ou por um milagre, fico muito contente pela crescente procura da minha ajuda nos últimos 5 anos. Tenho muita esperança em ser possível mudar estas crenças e os pais que já foram acompanhados na consulta, têm sido fortes aliados neste sentido. Sofrem com estes comentários, mas a sua maioria não se deixa enfraquecer, pois os resultados da sua confiança em todo o processo, são visíveis. Obrigada pela confiança, obrigada pela vossa perseverança, obrigada pelo vosso amor incondicional pelos vossos filhotes, obrigada por quererem fazer sempre melhor!