A importância do sono diurno: “I Believe in naps!” – Parte I

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Ao longo da minha experiência de trabalho com famílias sobre o sono dos mais pequenos, deparo-me muitas vezes, com ideias de desvalorização acerca do sono diurno. Há pais que chegam a pedir nas creches/infantários que não deixem que os filhos durmam a sesta para ver se dormem melhor à noite. Por outro lado, nas creches nem sempre há a informação correcta sobre as necessidades de sono dos bebés, pois por vezes, deparo-me com situações de bebés que não são deitados para dormir uma sesta durante a manhã, apenas sendo colocados para dormir num ambiente propício, após a hora do almoço, quando a sesta durante a manhã deve existir até cerca de um ano de idade, principalmente se o bebé acorda cedo. Estas ideias não poderiam estar mais erradas e vou passar a explicar porquê.

As sestas são especialmente importantes para um sono saudável na infância, além de serem essenciais, quando o tempo de sono diurno é adequado à idade, para um bom sono nocturno. “Sono traz mais sono”, ou seja, se a criança dormir e descansar aquilo que precisa durante o dia, mais facilmente adormecerá de forma mais tranquila à noite e mais facilmente terá um sono sem interrupções durante a noite. Eu costumo explicar aos pais que o sono diurno, pelo menos até aos 4 anos, é como se constituísse os pilares da casa do sono, se esses pilares forem débeis, teremos um mau sono nocturno. Desta forma, o sono da sesta ou das sestas é tão importante como o sono da noite, no que toca ao descanso corporal e, também, à actividade cerebral, intelectual e emocional, além de oferecer ao bebé e à criança uma pausa nos estímulos, permitindo-lhes recarregar baterias para continuarem a apreender o mundo da melhor forma.

Há muitos pais mesmo sem saberem como o sono diurno pode afectar o sono nocturno, que se preocupam em colocar os bebés/crianças a dormirem durante o dia, pois reparam que se estiverem muito tempo acordados, vão ficando cada vez mais impertinentes, chorosos e difíceis de acalmar. Há sempre excepções, em que os pais relatam que têm bebés  bem dispostos, mesmo quando o seu sono diurno é deficitário. Contudo, da minha experiência este estado de boa disposição normalmente não dura muitos meses, pois é como se o cansaço se fosse acumulando e, principalmente quando surge uma novidade no desenvolvimento da criança que exige mais dispêndio de energia, este estado de “bebé tranquilo” bem como o sono nocturno, provavelmente se alterará.

Outro facto que também é importante referir, é que não podemos avaliar a necessidade de sono dos bebés e crianças pelo seu comportamento de resistência para dormir ou estado de vigília, ou seja, nem sempre uma criança cansada pede para dormir ou cai para o lado de sono, muitas vezes até parecem super despertos e excitados  e, afinal estão é muito cansados. Este estado de excitação confunde os pais se realmente a criança precisa de dormir, por isso costumam dizer: “parece que nunca está cansado”. Se o bebé não é guiado para dormir no momento certo, pode-se manter desperto e ultrapassar o estado de cansaço, chegando rapidamente ao estado de exaustão. No estado de exaustão, ao contrário do que era expectável, os bebés não aceitam bem que sejam colocados para dormir, pois estão já tão agitados e superestimulados que têm dificuldade em se acalmar, em relaxar para conseguir adormecer.

Depois de uma boa sesta, as crianças estarão melhor dispostas para interagir e os pais, após termos cuidado do sono diurno, costumam referir que a criança parece outra, muito mais calma e sorridente. Por isso, vale a pena ensinar a dormir melhor durante o dia, os ganhos são imensos.

Nos próximos posts, vou falar-vos sobre como gerir as sestas consoante a idade (número de sestas, tempo de duração,  janelas de oportunidade para adormecer tranquilamente); qual o melhor ambiente para dormir a sesta; como orientar para dormir melhor a sesta e quando a sesta deixa de ser necessária.

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“O meu filho parece um relógio suíço, acorda sempre à mesma hora!” – A influência do relógio biológico no sono

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O sono é uma das funções do corpo humano que é regulada por um relógio biológico que, segundo os cientistas, é constituído por dois grupos de células que se encontram no centro do cérebro. Este relógio biológico é definido de acordo com o conjunto de pistas derivadas do ambiente, especialmente pelos períodos de luz e escuro e envolve o ciclo de sono e vigília, actividade digestiva, produção de hormonas, regulação térmica e diversos outros processos que se repetem diariamente. O período de tais ciclos dura cerca de 24 horas e, cada um dos processos atrelados ao citado relógio biológico, repete-se diariamente. Apesar dos ritmos circadianos serem inatos, levam tempo a se desenvolverem. É por isso que os recém-nascidos têm ciclos de sono/vigília inconstantes e que, essencialmente são regulados, pelo sentimento de fome ou satisfação (saciedade). Por volta das 4 a 6 semanas de vida, o ciclo circadiano começa a desenvolver-se, iniciando-se com a regulação hormonal (hormona do crescimento e a melatonina) e, pelas 8 a 12 semanas, um bebé é capaz de dormir por períodos mais longos, pois já é possível a consolidação e maior regulação dos ritmos de sono. Por vezes, os bebés precisam de ajuda para regular os seus ritmos de sono, o que é possível, guiando o bebé para rotinas/horários mais estáveis e criando ambientes distintos entre o dia e a noite, além disso a exposição solar durante o dia, vai ajudar a criar ritmos mais constantes e a manter o bebé mais desperto durante o dia e a dormir por períodos mais longos durante a noite.

O relógio biológico tem tanto impacto na qualidade do sono que, quando não existem horários consistentes para dormir e acordar, a probabilidade de existirem problemas de sono é maior. Um exemplo da existência de necessidade de constância nos horários de dormir e acordar, é que quando acordamos durante a semana de trabalho à mesma hora, a nossa tendência é acordar à mesma hora no fim-de-semana, mesmo que possamos dormir até mais tarde. O relógio biológico cria marcas através da constância, permitindo adormecer mais facilmente à mesma hora e acordar à mesma hora. A inconsistência nos horários de sono tem impacto no desenvolvimento cognitivo das crianças, provocando um ritmo circadiano disruptivo, privação de sono e efeitos na plasticidade do cérebro (capacidade que o cérebro tem em se remodelar em função das experiências do sujeito, reformulando as suas conexões em função das necessidades e dos factores do meio ambiente). Desta forma, é muito mais fácil que uma criança adormeça tranquila se for deitada, todos os dias, por volta da mesma hora (hora adequada à sua idade) e ao adormecer mais tranquila e não muito cansada, mais facilmente conseguirá prolongar o sono nocturno sem ter despertares.

Em muitos casos de problemas de sono na infância, existem situações anteriores como acordar com fome, com frio, com sede, porque tem um “sonho mau”, uma dor, ou outra razão que ficam marcados no relógio biológico, mesmo quando já não existe fome, nem frio ou dores. Isto costuma acontecer se os despertares, mesmo quando não existe desconforto da criança, forem marcados (o que exige repetição) pela intervenção dos pais (a presença dos pais, o leitinho quente, as festinhas e os beijinhos, o colo, as canções e outros rituais para embalar), de forma que o despertador biológico fica programado para essas horas. Exemplo típico destas situações, é o acordar para comer durante a noite, mesmo quando a alimentação já foi reforçada durante o dia e quando já não existe uma necessidade fisiológica. Se os pais continuarem a responder com comida aos despertares dos filhos, os despertares vão-se manter, quase cronometrados por um “relógio suíço”. Para ser possível, apagar estas marcas, estes despertares do relógio biológico da criança, é necessário os pais deixarem de responder de forma tão interventiva, diminuindo progressivamente a sua intervenção, dando sinal à criança que ela própria pode aprender a resolver estes despertares sem tanta ajuda dos pais. Mas atenção, tal não implica deixar de intervir radicalmente, como deixar chorar sem intervir. É possível guiar a criança a sentir confiança em si própria e nas suas capacidades de resolução dos despertares, de forma suave e nunca se sentindo abandonada.

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Dormir mal na infância é normal?

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Muitos pais questionam-me se este ou aquele problema de sono são normais na infância. Eu prefiro responder se é ou não comum existir determinada situação, pois dizer que é normal implica haver a possibilidade de se pensar que se deve aceitar o problema e esperar que se resolva por si só, nem que isso obrigue a esperar anos e que chegue a afectar gravemente a relação com o sono, tendo consequências prolongadas no tempo. Por isso, tal como o nascimento dos dentes é comum acontecer em determinada idade, não quer dizer que não tentemos amenizar todo o desconforto que pode provocar e, infelizmente, ao contrário do nascimento dos dentes, os problemas de sono não se restringem a poucos dias.

Os problemas de sono na infância são uma das maiores preocupações dos pais e cuidadores e, ainda hoje, existem respostas contrárias ou vagas a estes problemas. Os pais sentem-se perdidos, desesperados, desamparados, pouco ouvidos e sem respostas quando a privação de sono afecta drasticamente toda a família e o seu funcionamento emocional e físico. É comum ouvir-se: “é normal, espere que cresça”.

As informações que circulam no meio social sobre o sono orientam-se, muitas vezes, no sentido da desvalorização. O sono ainda é visto como uma perda de tempo ou algo que se pode compensar mais tarde. Esta ideia é grave quando as investigações recentes apontam que as crianças que sofrem de privação de sono apresentam mais problemas de comportamento, tais como hiperactividade, défice de atenção, depressão, ansiedade e problemas de saúde, como obesidade, maior risco de hipertensão e diabetes. Existe uma ideia errada que temos que aceitar e nos resignar quando as nossas crianças, nos seus primeiros anos de vida, dormem mal, têm dificuldade em adormecer e acordam muitas vezes durante a noite. Será mesmo assim? Será mesmo que terá que esperar anos para conseguir que o seu filho(a) durma a noite inteira? A minha resposta é não! Há muitas coisas que pode fazer hoje, para melhorar a relação do seu filho com o sono. É importante e possível começar a desenvolver bons hábitos de sono logo nos primeiros tempos de vida de um bebé, o que vai permitir que este vá dormindo, progressivamente, mais horas seguidas durante a noite e que durma as horas diárias necessárias à sua idade. Uma alimentação diária adequada tem, também, um papel muito importante nas horas de sono nocturnas. Um bebé que se alimenta bem durante o dia, não precisará de se alimentar tanto durante a noite. Contudo, nem sempre o acordar durante a noite está relacionado com a alimentação. Muitas vezes, surge a questão: será que o meu bebé acorda durante a noite porque tem fome? Será sempre a fome, o motivo dos despertares?

Os pais necessitam de respostas congruentes, baseadas em investigação científica recente, além de um suporte emocional quando estão exaustos e desesperados. Sabemos hoje que os problemas de sono na infância dependem muito do comportamento de cada um de nós, por isso, considera-se a higiene do sono (bons hábitos) como determinante para solucionar muitos dos problemas de sono que não têm causa fisiológica. É de extrema importância que os pais saibam o que é esperado ou típico para a idade de cada criança e estado de desenvolvimento, de forma a saberem responder aos filhos da maneira mais adequada.

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